Modelos teóricos sobre a sexualidade humana

A sexualidade humana é motivo de curiosidade e de grande conflito. Será que tem gente dentro da Psicologia tentando pesquisar, avaliar e compreender essas questões? Temos uma diversidade de pesquisadores e estudos importados de outros países. Precisamos pensar quais influências culturais podem afetar as concepções que são usadas como modelos teóricos ao longo do tempo para a avaliação psicológica. Quatro visões serão apresentadas nessa postagem. Embora existam outras, foram escolhidas as de maior expressão mundial e destaque ao longo do tempo.

O primeiro modelo é conhecido como Tipológico. A literatura tende a apontar este modelo categorial como um dos mais antigos existentes sobre a compreensão do comportamento sexual humano. Existe a mulher e existe o homem, e assim a heterossexualidade é formada por parceiros de sexos diferentes e a homossexualidade a partir de parceiros do mesmo sexo. É uma compreensão que leva em conta apenas o sexo biológico do indivíduo e esquece de qualquer outra nuance psicológica ou comportamental que possa interferir no processo de escolha de um parceiro.

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Existe um viés cultural, altamente religioso, que impõe a diversas sociedades a ideia de que homem e mulher são seres complementares e que só esta união pode ser aceita como correta e normal. A homossexualidade surge como um desvio ou uma doença. Visões binárias, como essa, exercem um forte poder de convencimento sobre as pessoas, pois, em geral, ninguém quer ser compreendido como fora da regra, o que leva a uma grande quantidade de estereótipos e conflitos sociais. O estigma não permite ao indivíduo expressar-se livremente e apresentar-se da maneira como se sente, sendo constantemente repreendido pela sociedade que entende os papéis sociais como vinculados aos papéis sexuais.

Felizmente, tivemos alguns pesquisadores ao longo do tempo que pensaram um pouco diferente dessa primeira concepção. Alfred Kinsey (1894 – 1956, EUA) foi um deles. Cientista, biólogo, entomologista, zoólogo e professor, descobriu que os animais que o interessavam eram os seres humanos, mais do que as vespas que inicialmente estudava. Casou-se em 1921 com uma de suas alunas, Clara McMillen, que o apoiava em suas pesquisas. A partir de suas próprias dificuldades sexuais, advindas de uma infância muito rigorosa e de restrições severas mantidas por uma família extremamente pudica, Kinsey tornou seu objeto de estudo a sexualidade humana, e a publicação de sua escala nos anos 40 e 50 (Século XX) revolucionou o entendimento de como as pessoas se relacionam sexual e afetivamente.

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A visão inovadora trazida por Kinsey é a de que a sexualidade, assim como uma série de características da personalidade, pode ser entendida como um contínuo, em que os extremos se apresentam exclusivamente hetero ou homossexuais, mas os termos intermediários podem ser considerados ambissexuais, isto é, fazem parte de um amplo espectro que inclui comportamentos hetero e homo, em diferentes frequências e intensidades. Kinsey realizou seus estudos com amostras significativas – grande parte da população americana – e representativas – desde padres e freiras que, em teoria, juntaram-se ao celibato, até profissionais do sexo – na tentativa de obter dados confiáveis. Com o passar do tempo, percebe que sua escala é insuficiente e acrescenta um oitavo ponto, conhecido como “X”, que leva em conta as pessoas assexuais (pessoas que se sentem pouco ou nada atraídas por um sexo ou outro – um grupo que a sociedade altamente sexualizada que temos atualmente tende a imaginar que não existe, embora as pesquisas demonstrem o contrário).

Um problema grave se interpôs em seus trabalhos. O próprio Kinsey torna-se parte deles, como amostra, seguido de sua esposa, parentes e amigos. Este tipo de participação em pesquisa é uma armadilha perigosa, pois a imparcialidade que deveria estar presente no pesquisador deixa de existir quando se é parte tão vívida de um estudo.

Entre os anos 70 e 80 (Século XX), um professor de Psicologia da Universidade do Kansas, Michael Storms, expressou que a Escala Kinsey era muito limitada, por ser pontual, e criou o esquema de duas dimensões com o objetivo de ampliar a visão da sexualidade como um contínuo.

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Sua escala era uma contraposição entre o homoeroticismo (interesse e experiências sexuais com parceiros de mesmo sexo) e o heteroeroticismo (interesse e experiências sexuais com parceiros do sexo oposto) em diferentes eixos de um plano cartesiano. Os quadrantes formados explicariam as categorias sexuais ocupadas pelos indivíduos. A lógica ainda é a da atração sexual, mas Storms considerou a questão da ambiguidade comportamental que faz com que certas pessoas sejam percebidas como andróginas (pessoas que apresentam alta feminilidade e masculinidade simultâneas) ou indiferenciadas (pessoas que não são particularmente femininas ou masculinas). Uma outra novidade diz respeito à assexualidade, que agora não é considerada mais um ponto fora da escala, como algo anormal, mas uma gama de comportamentos identificáveis ao longo do contínuo.

Embora a escala Kinsey e o esquema de duas dimensões possam parecer grandes evoluções (e foram!), existem formas mais modernas de se pensar a sexualidade. Oficialmente, desde os anos 50 (Século XX) entende-se sexo e gênero como expressões distintas. Enquanto o primeiro diz do genótipo, da biologia que determina a anatomia dos órgãos genitais, o segundo é uma construção social que explora, dentro de uma cultura, aspectos psicológicos e comportamentais que são considerados masculinos ou femininos. Assim, a atração sexual é diferente da identificação de gênero, e os modelos anteriores têm dificuldades claras em avaliar essa distinção.

Simultaneamente à escala anterior, temos o desenvolvimento do modelo multidimensional conhecido como KSOG, publicado no livro “The Bissexual Option” (“A opção bissexual”, tradução da autora) originalmente em 1978. Seu autor, Fritz Klein (1932 – 2006), era um psiquiatra austríaco que, ainda criança, refugiou-se nos Estados Unidos fugindo da segunda guerra mundial. Mesmo com essa história de vida, era conhecido por ser falante, controverso e apaixonado pelos assuntos com os quais trabalhava. Foi um grande apoiador das causas homossexuais e bissexuais, auxiliando a fundar periódicos científicos voltados para artigos nessa área e produzindo, ele próprio, grande parte desses estudos.

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A KSOG tenta avaliar a partir de uma visão mais fluida da sexualidade, por meio da mensuração de variáveis como a atração, mas também o comportamento, as fantasias, as preferências emocional e social, o estilo de vida e a autoidentificação tanto sexual quanto política, que podem variar ao longo da vida. Assim, o gênero é considerado, tanto quanto o sexo, e as alterações comportamentais, psicológicas e físicas são tratadas como relevantes. Ainda assim, Klein percebe que a sexualidade é muito complexa para ser definida em categorias simples e tão bem definidas e sugere que os estudos sobre o tema não sucumbam às pressões sociais e continuem sendo desenvolvidos.

Muita gente, ao final deste post, pode estar se perguntando: “mas por que avaliar a sexualidade?”, ou talvez esteja pensando que instrumentos desse tipo só servem para rotular mais ainda as pessoas. A questão vai muito além do rótulo. Avaliar, de maneira mais objetiva, algo que é tão subjetivo ajuda a pessoa a compreender melhor suas dificuldades e seus conflitos com relação à própria sexualidade. Um resultado mais claro pode auxiliar o psicólogo, embasando sua estratégia terapêutica. Esse tipo de avaliação também é necessário para a redesignação sexual / genital ou transgenitalização (antigamente conhecida como cirurgia de mudança de sexo) – que é o procedimento de adequação dos genitais da pessoa para se assemelharem àqueles do gênero assumido – normalmente após um longo processo de terapia hormonal e outras cirurgias menores para a modificação dos caracteres secundários. No Brasil, a cirurgia foi proibida até 1997 e só passou a ser realizada pelo SUS a partir de 2008, desde que o indivíduo seja maior de idade, tenha passado por pelo menos dois anos de atendimento psicoterápico, e apresente um laudo psicológico ou psiquiátrico afirmando o diagnóstico de transtorno da identidade sexual (CID-10) ou disforia de gênero (DSM-5), que é o que o torna favorável para o procedimento. A transexualidade ainda é compreendida como um distúrbio psicológico, referindo-se ao sofrimento causado pela incompatibilidade entre o gênero designado biologicamente (sexo) e a expressão de gênero do indivíduo. Por outro lado, é exatamente o fato de ser considerada como um distúrbio que leva a cirurgia a ser entendida como reparadora e urgente, e não cosmética e eletiva e, portanto, realizada pelo SUS.

Não há, hoje, no Brasil, instrumentos devidamente padronizados para esse tipo de avaliação. Ela é feita com base muito mais em critérios diagnósticos e observação clínica que em uma avaliação formal com instrumentos psicométricos. Além de ser muito difícil adaptar uma escala desse cunho para o nosso contexto, a questão ética deixa tudo mais complicado. Estudos com minorias, sejam elas raciais, socioeconômicas, de gênero, não têm apresentado boa aceitação pelos diversos comitês de ética em pesquisa com seres humanos. Entende-se, muitas vezes, que as consequências dessas pesquisas geram resultados polêmicos, que pioram o preconceito ao invés de esclarecê-lo.

Acima de tudo, o mais necessário é pensarmos que as pessoas deveriam ser livres para expressar a sua sexualidade, desde que isso não prejudique os outros física ou psicologicamente, ou que cause qualquer tipo de negligência ou violência. A sexualidade é uma característica, uma forma de experimentar o mundo, e não uma escolha que se faz de uma hora para outra e dependendo da conveniência ou do humor. Respeito é a base das relações humanas e deveria fazer parte do tratamento com o outro, independentemente de sua orientação sexual.

Algumas referências importantes (todas em inglês):

Theories of sexual orientation – Um dos artigos de Michael Storms explicando as teorias da orientação sexual (já dá para perceber uma certa evolução de pensamento).

Are you sure you´re heterosexual? Or homosexual? Or even bisexual? – Reimpressão de um artigo de Fritz Klein explicando um pouco da Escala Kinsey e da KSOG.

Defining and measuring sexual orientation for research – Capítulo que explica essas teorias e outras mais sobre a orientação sexual humana.

2 thoughts on “Modelos teóricos sobre a sexualidade humana

  1. Ei, Fernanda! De vez em quando eu visito seu texto sobre sexualidade e já o indiquei várias vezes aos alunos. É realmente muito bom! Saudades de você! Um beijo, Alana

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