Pelo bom uso da língua portuguesa

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Muitos alunos do curso de Psicologia ficam indignados quando os professores tiram pontos devido ao mau uso da linguagem. Reclamam dizendo que estão se formando psicólogos e não redatores, ou que além da matemática (na estatística) eles também achavam que não iriam nunca mais ter aula de português.

Mais uma vez, então, torna-se necessário explicar os motivos pelos quais a chatice do professor é necessária. O bom uso da linguagem não se encerra na prova. Existe algo no final da trajetória da faculdade que se chama monografia ou, para quem preferir, trabalho de conclusão de curso (TCC). E não é só isso: quem se mantiver na área de pesquisa, vai precisar escrever projetos e relatórios, sem contar a enorme papelada relacionada aos comitês de ética.

Nesse momento, você pensou que escapou, porque pode pagar um revisor para verificar seu TCC e nunca fará outra pesquisa na vida. Sinto desanimá-lo(a): em qualquer área que você cair na Psicologia, seja clínica,  jurídica ou organizacional, será necessário que produza documentos psicológicos, como um laudo ou um parecer. Como é possível dar credibilidade ao resultado apontado por um documento, se o psicólogo não é nem capaz de redigi-lo?

Esta postagem, então, é para demonstrar alguns dos problemas mais comuns de linguagem, que nós, professores, vemos o tempo inteiro em provas e trabalhos entregues pelos alunos, e em textos em geral. Além do grande número de “ansiosos” com C, “atrasos” com Z, “autoestima” com L e da quantidade de “inconscientes” escritos das mais diversas formas, temos muitas questões a discutir quando o tema é nosso pátrio idioma.

O primeiro desses problemas diz respeito ao uso de “bom” e “bem”, “mau” e “mal“. Essa é fácil: “bom” é o contrário de “mau” e “bem” é o contrário de “mal”. É possível dizer que o indivíduo se apresenta de bom/mau humor, ou bem/mal-humorado, que o prognóstico do paciente é bom/mau, e que ele foi bem/mal atendido. Assim, para saber que formato usar, tente pensar no termo oposto.

Outra questão é o uso das diversas formas de escrever “porque”. A regra básica é que cada forma de escrever tem um motivo, de acordo com o seguinte:

Por que: quando separado e sem acento, pode ter dois significados. No primeiro, representa uma união entre uma preposição (por) e um pronome interrogativo (que), e significa “por qual motivo”. Assim, ele normalmente aparece no início de frases interrogativas (perguntas) – Por que você saiu mais cedo hoje? – embora possa aparecer em outros lugares da sentença (no caso de interrogação indireta) – Gostaria de saber por que ele se atrasou. O segundo significado é quando representa uma união de uma preposição (por) com um pronome relativo (que) e equivale à expressão “pelo qual” – Este é o pacote por que estávamos esperando.

Por quê: quando separado e com acento, sempre aparece no final de uma sentença e tem o mesmo significado da forma anterior (“por qual motivo”). No fim da frase, ele se torna tônico e daí surge a necessidade da acentuação.

Porque: quando junto e sem acento, é uma conjunção, com o mesmo significado de “já que” ou “pois”. É utilizado como resposta às formas anteriores – Saí mais cedo porque não me sentia bem.

Porquê: quando junto e com acento, torna-se substantivo. Costuma aparecer precedido de um artigo e significa a razão ou causa de um acontecimento – Gostaria que me explicasse o porquê de ter entregado o trabalho com atraso.

Mais uma dificuldade aparece ao iniciar frases com pronomes oblíquos átonos (me, lhe, se, te, dentre outros). Eles nunca devem constar no início das frases, nem logo após vírgulas. Nesses casos, devemos fazer uma ênclise, isto é, colocar o pronome após o verbo – Entregar-se à polícia pode ser a única saída (e não “Se entregar”).

Para finalizar, não há como esquecer da crase. Ela acontece a partir da fusão de duas vogais iguais. No nosso idioma, essa fusão se dá quando uma preposição (a) encontra o artigo definido feminino (a) – Vamos à praia. Para descobrir se ela é necessária, basta trocar o termo por outro no masculino – Vamos ao parque. Se o termo “ao” aparecer, ele é fusão da preposição (a) com o artigo definido masculino (o). Isso significa que a crase deveria estar presente na frase inicial.

Todas estas questões são importantes na produção de um bom texto. Escrever bem favorece sua estética, fornece clareza e melhora a compreensão, dá credibilidade ao texto e ao autor. Além disso, é uma demonstração de respeito ao leitor.

O que você pensa sobre isso?