A história da Estatística na Psicometria

2. A história da estatística na psicologia

Não há como escapar. Um texto histórico normalmente começa falando sobre a etimologia do termo a ser estudado. Assim, a palavra estatística vem da palavra latina status, que significa o estado de alguma coisa. A literatura remonta seu surgimento há 5 mil anos a.C., quando os egípcios precisavam realizar registros de prisioneiros de guerra.

Fibonacci
Sequência de Fibonacci

Os primeiros relatos estatísticos são de contagem de pessoas e do uso de probabilidades em apostas, como no jogo de dados. Posteriormente, as informações passaram a ser utilizadas para cobrança de impostos e recrutamento militar, por meio da proporcionalidade. Era ainda uma estatística rudimentar, pois a maioria das fórmulas e teorias de números surge após a sequência de Fibonacci (que estabelece que a soma dos dois números anteriores será igual ao número seguinte da sequência – 1, 1, 2, 3, 5, 8, 13…), no início do Século XIII.

Os usos da estatística, atualmente, são os mais variados. Vão desde uma simples proporção entre o número de bois e o espaço em um pasto até análises de predição com variáveis complexas, como as variações de rota de determinados astros ou o comportamento humano. Define-se estatística como um conjunto de métodos e técnicas aplicáveis a qualquer área, que envolve todas as etapas de pesquisa sobre um determinado tema, desde seu delineamento até a interpretação dos dados gerados. Ela permite extrair dos resultados informações precisas que auxiliam nas tomadas de decisões, sempre acompanhadas de considerações sobre a margem de erro e do nível de confiança para a resposta.

Na Psicologia, a estatística começou a ser utilizada no Século XIX. Vemos uma ampliação de seu uso com a fundação do primeiro Laboratório de Psicologia, por Wilhelm Wundt, em 1879. O laboratório foi iniciado em uma pequena sala, praticamente vazia, doada pela Universidade de Leipzig, na Alemanha. Com o passar do tempo, novos materiais e espaços foram agregados, conquistando um prédio próprio, que se constituiu em um Instituto de Psicologia. Anos depois, foi completamente destruído por advento da Segunda Guerra Mundial.

Wundt
Wundt e seus auxiliares

Não é à toa que Wundt é considerado o pai da Psicologia Científica: antes, a Psicologia era difusa e caracterizada apenas por métodos essencialmente subjetivos, que promoviam resultados considerados universais, mas que não poderiam ser generalizados, já que eram baseados em estudos de sujeito único. Com Wund, a Psicologia passa a fazer uso dos instrumentos fornecidos pelas ciências naturais, como a experimentação e a observação, e noções quantitativas são introduzidas. A Psicofísica, área por ele inaugurada juntamente com Fechner e Weber, estabelecia a relação entre fenômenos físicos (peso, comprimento, textura, luminosidade…) e a experiência sensorial e perceptual obtida pelo indivíduo. Galton, contemporâneo desses pesquisadores, aplicou a estatística aos processos genéticos e na relação entre aspectos psicológicos e o estudo de características antropométricas (como a correlação entre a medida do perímetro cefálico e a inteligência, por exemplo). Thurstone e Cattell estavam presentes nesta época, estudando as relações entre processos mentais. Binet, Simon, Ebbinghaus, Terman e outros autores também estavam interessados em estudar as relações entre características cognitivas e comportamento.

A partir destes estudos, no Século XX surgem formalmente a Psicologia das Diferenças Individuais e a Psicometria, embora possamos ver seus usos já no século anterior. Psicometria, em Psicologia, consiste em um conjunto de técnicas usadas para medir, de forma comprovadamente científica, uma série de comportamentos sobre os quais se deseja obter algum conhecimento. É a atribuição de números às medidas de fenômenos e operações psicológicas. É um campo que faz uso da estatística para compreender o funcionamento mental.

[Neste momento, é importante diferenciar a descrição realizada acima do outro significado do termo Psicometria. Em 1849, um médico americano chamado Joseph Buchanan denominou Psicometria a faculdade extrassensorial de perceber conteúdos relacionados a determinados objetos que estariam presentes fora da realidade física, atribuindo o termo a esta propriedade mediúnica de alguns seres humanos (significado parapsicológico). Esse não é um significado considerado científico e, portanto, não é usado em Psicologia.]

BRLESC-1_computer
Computadores estatísticos antigos

Com o desenvolvimento dos computadores, tudo se tornou mais fácil. Os cálculos feitos por máquinas eram mais rápidos, além de permitir amostras mais amplas de indivíduos, sem o limite da habilidade humana para os cálculos. Os softwares de análises estatísticas permitiram o surgimento de novos métodos, que possibilitaram uma precisão muito maior de resultados. As áreas de uso da estatística se multiplicaram em Psicologia: ela deixou de estar presente apenas em pesquisas e passou a fazer parte do cotidiano dos profissionais. Em uma empresa, pode-se examinar o clima organizacional por meio de avaliações setoriais. Na saúde, dados epidemiológicos e prevalências populacionais são importantes para compreender a ocorrência de determinados fenômenos em públicos específicos. Indicadores sociais determinam a necessidade de políticas públicas. Os testes psicológicos fazem amplo uso das estatísticas, tanto em seu uso em pesquisa quanto na análise de dados individuais.

No Brasil, ainda vemos uma predominância em Psicologia do uso de métodos subjetivos para o estudo das características humanas. São poucos os profissionais que se interessam pelo uso da estatística em Psicologia. Em compensação, outros campos do conhecimento, como o Direito e a Medicina, têm solicitado dos psicólogos uma visão cada vez mais quantitativa desses processos. A prática baseada em evidências, que surgiu nos Estados Unidos nos anos 1970, tem tomado força em Psicologia apenas atualmente no país, com um maior interesse pelo tratamento estatístico dos dados de pesquisa. Antes tarde do que nunca.

Entretanto, a estatística não é apenas um mar de rosas. Existem diversas críticas sobre como os dados são produzidos e interpretados. Vamos imaginar uma situação: em uma amostra de duas pessoas, em que uma recebe um salário de R$1.000,00 e a outra não tem dinheiro absolutamente nenhum, os resultados podem dizer que cada indivíduo dentro dessa amostra possui, em média, R$500,00 de rendimento mensal. Este dado não passa nem perto da realidade, mas não se pode negar que é esse resultado que os números apresentam. Assim, para os estudos, devem-se obter porções grandes e proporcionais aos membros da população, isto é, amostras significativas e representativas. Com isso, evita-se que os dados reflitam apenas estereótipos sociais e permite que sejam generalizados para o restante da população.

Além disso, é preciso muito cuidado na criação de hipóteses de pesquisa. Uma hipótese malfeita pode privilegiar classes populacionais específicas por meio da distorção do significado dos resultados, afinal, quem os interpreta pode usá-los conforme sua própria conveniência. Por fim, é essencial que haja discernimento para a divulgação das informações geradas na pesquisa, ou o entendimento de quem lê certamente será prejudicado, ou seu julgamento será tendencioso.

A estatística é uma ferramenta poderosa, que deve ser utilizada com cautela. Caso contrário, estaremos repetindo os erros do passado e permitindo que as críticas que são feitas desde a antiguidade se perpetuem.

2 thoughts on “A história da Estatística na Psicometria

  1. Errado. Estatística vem da palavra estado, mas não estado das coisas. Significa Estado/governo. A probabilidade vem dos jogos de azar, ‘as bem depois da ideia de estatística, descritiva e frequentista. Wundt não cria a psicofísica; ele a aplica. Os dois autores fundamentais são Weber e Fechner. Isto em 1850.

    1. Lucas, obrigada pelo comentário. As questões históricas divergem entre os autores, o que não quer dizer que esteja errado, mas sim que é muito difícil precisar a época em que cada parâmetro surgiu. Sobre Wundt, sugiro reler o texto. Estamos falando a mesma coisa com palavras diferentes. Um abraço!

O que você pensa sobre isso?