Pequeno dicionário das ideias machistas

Meus pais me criaram para não ser submissa. Meu pai nunca me colocou em posição de princesa, minha mãe sempre me incentivou a estudar. Queriam que eu tivesse uma vida independente, com alguém que eu quisesse do meu lado, caso eu quisesse alguém do meu lado. Ensinaram-me que eu poderia ser o que eu quisesse, e que, se me esforçasse muito, conseguiria realizar alguns de meus sonhos (não todos, eles foram bem realistas…). Deixaram que eu escolhesse entre o desenho ou o balé, que eu dirigisse pra todo lado, que eu viajasse e não se opuseram quando decidi morar sozinha.

Na escola, os meninos não se importavam quando me juntava a eles no futebol de botão, até me convidavam. Eu também não via nenhum problema em querer participar. Mas bem cedo percebi que as mulheres levavam desvantagem no mundo. No colégio mesmo, os meninos eram valorizados e elogiados por tirar notas boas, enquanto que, para as meninas, isso não era mais do que obrigação. Em compensação, éramos punidas por notas ruins, enquanto as notas ruins deles eram naturalizadas, como algo esperado. Eles estavam sempre esfolados dos esportes e por isso eram chamados de herois, enquanto elas deveriam sempre estar impecáveis, com roupas limpas e bem passadas, para serem chamadas de bonecas. Eu estava sempre ralada, despenteada, de bermuda e um cadarço de cada cor nos tênis, falando muito do que pensava (mais do que devia, de acordo com os professores da época) e cobrando o devido reconhecimento pelos meus feitos.

Escutei frases vindas de homens durante o início da minha idade adulta como “você é tão legal que parece até um homem” e “que bom que você não tem frescuras como as outras mulheres”. Era difícil entender isso como elogio. Também escutei de outras mulheres “você precisa se arrumar melhor, parece um menino”,  e “mulher não pode ser esperta assim, não vai arrumar marido”. Fazia frases como essas entrarem por um ouvido e saírem pelo outro, mas não retrucava, porque ainda não via a necessidade de corrigir as pessoas, apesar de sentir que algo estava errado.

Sempre li muito e, à medida que crescia, minhas leituras me levaram para uma observação mais crítica sobre o feminino. Soube então de Margaret Keane e seu esposo ladrão da autoria de suas pinturas. Li Virgínia Wolf e sobre a dificuldade em divulgar suas histórias em uma época em que apenas homens publicavam. Na faculdade, conheci um pouco mais de Simone de Beauvoir e sua crítica ferrenha a uma sociedade que despreza(va) as mulheres. E aos poucos, desfiz da necessidade de alcançar os padrões de beleza impostos, impossíveis de serem atingidos, e isso me trouxe um alívio imenso.

Imagino que, por isso tudo, eu sempre tenha me sentido imune ao machismo. Querendo ou não, minha etnia e minha classe social foram aspectos protetivos nesse processo, assim como minha profissão, que é majoritariamente formada por mulheres engajadas em uma proposta de desenvolvimento de direitos humanos. É notório que mulheres em padrões culturais, étnicos, escolares e socioeconômicos diferentes dos meus são vítimas mais vulneráveis da violência de gênero. Tive uma vida que me blindou da misoginia até recentemente, quando comecei a perceber nuances nas atitudes de determinados homens ao meu redor. E ter assumido uma postura pública feminista não impediu que o machismo me atingisse, pois é muito mais fácil ser feminista para as outras que para si mesma.

É possível enxergar grandes atrocidades acontecendo com mulheres, em geral. Situações de agressão física, que muitas vezes culminam em violência doméstica, crimes passionais e homicídios. Essa onda atual de maridos que se matam, mas antes matam a esposa e os filhos (se ele não pode ter a esposa e os filhos, eles não devem existir). Mulheres vítimas de violência sexual a cada esquina, desde assédio até estupro. O machismo que espanca e mata homossexuais e transsexuais, e que afeta o próprio homem, que não pode chorar, a quem não é permitido ser afetuoso e delicado. O machismo que culpa e tenta desmentir a vítima, colocando-a em dúvida perante a mídia e a sociedade como um todo. Sob esse ponto de vista, o que senti esses dias parece pequeno.

Ao mesmo tempo, são os pequenos machismos invisíveis do cotidiano que convidam as mulheres ao silêncio. Que fazem com que se submetam a relacionamentos abusivos sem reclamar. Que permitem que se releguem a cargos menos prestigiados, ou com menores salários, que os dos homens nas empresas. Que depreciam a mulher frente aos filhos, à família e aos colegas de trabalho. E frente a ela mesma, de forma que comece a duvidar de suas próprias capacidades. Nesses casos não há espancamento, morte ou violência física, mas há uma violência implícita no modo de agir do homem.

É importante sabermos reconhecer as formas camufladas e cotidianas que o machismo encontra para nos atingir. Vou citar aqui quatro delas: manterrupting, mansplaining, bropriatinggaslighting. Estes termos ainda não têm tradução, e as fontes de informação original são em inglês. Isto se reflete nos vídeos a seguir, que infelizmente, também não são em português, embora as imagens ilustrem bem como essas ações acontecem.

Manterrupting (man interrupting)

É quando um homem interrompe, brusca e desnecessariamente, de forma consciente ou não, uma mulher enquanto ela fala. Em alguns casos, aparece de maneira mais agressiva, como quando um homem manda uma mulher se calar ou fala ininterruptamente sobre a fala dela, até que ela se cale.

Essa discussão surgiu a partir de um estudo realizado por uma psicóloga da Universidade de Yale que apontou que senadoras americanas falam menos que seus pares, ou mesmo que indivíduos subalternos, do sexo masculino. Uma suposta explicação seria a de que quando um homem fala, ele é aplaudido, enquanto quando uma mulher fala sobre o mesmo assunto, é rechaçada. Assim, as mulheres são reforçadas por não se pronunciarem, enquanto os homens são reforçados exatamente pelo oposto. Outro estudo mostra que não só os homens fazem isso. Há uma tendência maior inclusive entre mulheres para interromperem desnecessariamente seu interlocutor se este for do sexo feminino – o que também é reflexo do machismo, afinal mulheres aprendem que há problemas em interromper homens, mas não em interromper mulheres.

O vídeo a seguir mostra alguns casos em que esse tipo de ação machista aconteceu, na política, nas artes, no jornalismo.

 Mansplaining (man explaining)

O termo foi trazido a tona pelo tumblr Academic Men Explain Things To Me. Ocorre quando um homem, geralmente após interromper a fala da mulher (manterrupting), explica a ela, de forma paternalista e professoral, algo sobre o qual tem menos propriedade que ela para falar, como se ela não soubesse sobre o assunto, fosse incapaz de compreendê-lo adequadamente, ou como se fosse algo muito difícil de ser entendido por ela. Também acontece a partir de frases que indicam que a mulher está errada em assuntos nos quais está certa, ou que estão relacionados apenas à apresentação de opiniões. Há momentos em que o homem, inclusive, apresenta dados errados, desconhecidos, sem fontes, ou inúteis, apenas para atrapalhar ou contradizer a fala da mulher.

Tais atitudes vêm acompanhadas de uma desconfiança sobre a capacidade intelectual feminina, apontando que as mulheres são mais limitadas e que os homens apresentam maior autoridade sobre os assuntos. Maridos, pais, chefes costumam falar expressões como “você não sabe o que está dizendo”, “você não está entendendo, deixa eu te explicar” ou “não é bem assim como você está falando”, sendo que é um assunto de sua especialidade ou apenas uma opinião – já que cada um pode ter a sua.

É muito triste, nesses vídeos, ver como as mulheres se calam e acabam rindo, sem graça e sem reação, quando são interrompidas ou ignoradas. Porque é exatamente esta reação que temos no dia a dia quando eventos deste tipo acontecem. Com medo de sermos mal entendidas, demitidas, inconvenientes ou chatas, preferimos nos calar a mandar o interlocutor se calar.

Bropriating (brother appropriating)

Por Rafael Corrêa - http://rafaelcartum.blogspot.com.br/2015/08/42-salao-internacional-de-humor-de.html
Por Rafael Corrêa

Ocorre principalmente em ambientes de trabalho. É quando um homem se apropria da ideia de uma mulher e usa-a para ganhar crédito, promoções e aumentos salariais. Inicialmente, ele pode inclusive desacreditar a mulher perante seus pares ou superiores, falando da inutilidade ou do ridículo da ideia dada. Posteriormente, assume aquele ponto de vista como seu e o repete, como se fosse uma novidade brilhante. Em alguns casos, ele tenta inclusive explicar à mulher a ideia que ela teve e da qual ele se apropriou (olha o mansplaining aí!).

É inegável o preconceito existente na contratação de mulheres para uma variedade de cargos, em grande parte devido à possibilidade de gestação e à necessidade de atenção aos filhos, o que pode afetar seu horário e tempo disponível para o trabalho. Além disso, ao propor alguma ação, mulheres não são naturalmente ouvidas (voltamos ao menterrupting), e quando se impõem, são estigmatizadas como inflexíveis ou transtornadas (histéricas é a condição mais utilizada). Outras mulheres raramente as apoiam, com receio de também serem rotuladas, excluídas, ou apenas porque ainda não perceberam claramente como isso acontece.

O bropriating retira da mulher a propriedade intelectual de suas ideias, o que está diretamente associado à demonstração de seu poder cognitivo, e faz com que ela pareça subalterna e inferior. Ter noção de que isso acontece ajuda a compreender inclusive o motivo pelo qual o número de mulheres em posições de liderança em organizações e na política é muito inferior ao número de homens.

Gaslighting

É uma clara manipulação, por meio de frases como “deixa de ser louca”, “você está exagerando” ou “isso é coisa da sua cabeça”, muitas vezes na forma de brincadeiras, que faz com que a mulher duvide ou desacredite de seu próprio raciocínio e senso de realidade. Quando ela retruca a fala de um homem – quanto a algo que realmente aconteceu ou sobre o qual ela tem provas e certezas – ele propõe que ela enlouqueceu ou está equivocada e, assim, desempodera a mulher de sua autonomia e faz com que ela desista de suas próprias opiniões. Normalmente aparece acompanhado do manterrupting e do mansplaining. É uma forma de controle, e das mais cruéis, pois desautoriza a mulher quanto a si mesma e coloca em cheque sua sanidade mental.

O termo é derivado do filme Gaslight (À meia luz, em português – vide trailer a seguir), de 1944, em que o protagonista casa com uma mulher de grandes posses. Ao descobrir que poderia ficar com toda sua fortuna se pudesse interná-la em uma instituição de saúde mental, monta um plano maquiavélico: passa a acender e apagar as luzes da casa, e quando sua esposa fala algo sobre o ocorrido, desemente-a e diz que ela está ficando louca.

Inicialmente, em todos esses casos, a sensação é de que acontece entre pessoas, de maneira generalizada, sem envolver especificamente homens e mulheres nesses papéis, devido à arrogância, ou simplesmente porque faz parte da conduta humana. Mas estudos demonstram que há sim um viés de gênero, já que o direcionamento dessas ações é do homem para a mulher, a maior parte do tempo. Estes comportamentos vêm acompanhados de um imenso paternalismo e uma necessidade de desmerecer a mulher, de forma humilhante, constrangedora, ofensiva e/ou ilógica. Estão também associados a um alto grau de narcisismo na personalidade do homem que os reproduz. Quando analisamos a situação e verificamos as variáveis, é impossível confundir com simples falta de educação.

Neste ponto reside a importância do feminismo. Feminismo não é o contrário de machismo – o contrário seria femismo (crença na superioridade feminina) e, no caso da misoginia, misandria (um desprezo ou ódio pelo masculino). Feminismo é um movimento político, filosófico e social que tem como objetivo a convivência pacífica e a igualdade de direitos entre seres humanos, livre de imposições de gênero e de uma cultura patriarcal. Ele protege não apenas mulheres, mas homens (incluindo toda a ampla diversidade de gênero que temos), a partir do momento que não permite privilégios para nenhum lado. É por isso que feminismo não tem antônimo: somos todos abrangidos por ele. É também por isso que todos, independentemente do sexo biológico, da orientação sexual ou do gênero, deveriam se dizer feministas.

Assim, não pretendo dizer que todos os homens são maus. Conheço homens formidáveis, que não praticam essas ações, homens que já perceberam seus erros e estão em processo de desconstrução desses machismos e homens que não sabem que estão sendo machistas e precisam ser informados, para que possam se corrigir. Mas também conheço homens que oprimem mulheres e pedem desculpas da boca para fora depois, achando que isso resolve a questão, e homens que são extremamente machistas, negam-se a reconhecer seus erros e não veem problema nenhum no que fizeram.

A responsabilidade por isso é de todos. A nossa cultura, durante séculos, colocou o homem em uma posição social hierarquicamente superior à mulher. Boa parte dos homens e mulheres cria seus filhos para serem machistas – porque eles mesmos foram criados assim, e este é o modelo de educação que compreendem como correto e possível. Frases como “homem não chora” (quando o menino está sofrendo) e “já pode casar” (quando a menina faz alguma coisa direito) fizeram parte da nossa formação e é muito difícil mudá-la, pois exige consciência de igualdade de gêneros, do feminismo, do machismo e do sofrimento que ele causa. É preciso educar as crianças para a igualdade. Mas também é preciso modificar a percepção dos adultos, para então conseguirmos mudar a forma como eles educam suas crianças. Para isso, são necessárias políticas públicas voltadas para os direitos humanos.

É um complexo ciclo de aprendizagem. Só conseguiremos mudar por meio da educação.


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4 thoughts on “Pequeno dicionário das ideias machistas

  1. Excelente texto Fernanda. Uma pena o assunto ainda ser muito mal visto por certa parte da sociedade atual, alguns dos quais tentam justificar atitudes como essa em relação às mulher apontando explicações biológicas, religiosas, culturais e políticas. Triste ver como as mulheres do nosso país ainda sofrem inúmeras situações de preconceito, que são alimentadas primeiramente nas famílias, e que muitas vezes se estende nas escolas, como vc apontou em sua história de vida, e chega na mídia, nos meios de comunicações sociais e discursos dos “representantes do povo”. Ás vezes eu penso, tendo uma visão a longo prazo do desenvolvimento da história humana, que muitas coisas que num certo tempo eram consideradas normais, justas e até mesmo corretas, hoje são vistos com um olhar muito crítico a ponto de nos perguntarmos: “Como isso realmente aconteceu? Como os seres humanos foram capazes disso?”, dentre outras. Aqui se inseres exemplos como o Holocausto, a Inquisição, as arenas Romanas, Escravidão, e vários outros exemplos. Quando vamos olhar o passado e nos perguntar: Como fomos capazes de tratar as mulheres (e também homossexuais, travestis, etc) assim e tomar isso como algo normal? Por que fomos idiotas o suficiente a ponto de deixar esse problema nos acompanhar durante séculos? Não sei quando isso será realidade, ou ainda viverá no âmbito da utopia. Mas espero que seja logo, e que ainda esteja vivo para ver isso. Parabéns pelo texto.

    1. Oi Valdemir! Acredito (ou talvez a palavra mais adequada seja “espero”) que no futuro as próximas gerações olharão para os momentos que vivemos e reconhecerão que a forma como as mulheres foram tratadas ao longo dos séculos é irracional e preconceituosa. Só que para esse dia chegar, precisamos prepará-las para entender que qualquer tipo de violência, agressão, assédio ou abuso é fora de propósito. Depende da gente. Obrigada por comentar!

  2. Excelente texto, um ótimo resumo do machismo que está presente em nosso dia a dia. A despeito das informações de frequência, em que se argumenta que as mulheres são mais interrompidas, têm suas ideias mais surrupiadas, são submetidas mais vezes a explicações paternais e são vistas mais frequentemente como pessoas exageradas (loucas), queria dizer que eu, homem-branco-estudado-informado-classemédia, também passo pelas mesmas situações! Como disse, concordo que as mulheres devem enfrentar essas situações com maior frequência pois o machismo está ai, porém, mais do que o machismo está a falta-ausência-subtração da EDUCAÇÃO! Se você assistir uma discussão entre dois homens sobre futebol (tema substancialmente idiota na minha opinião) irá encontrar os quatro elementos. Trata-se do ser humano sendo rude. Se puder, leia “Como fazer amigos e influenciar pessoas”, um livro escrito para ensinar técnicas comerciais, mas que no fim nos ensina apenas a ter boas maneiras uns com os outros!

    1. Oi Ruslan, obrigada por ler e comentar. Falta de educação existe sim. Mas fico pensando se os motivos que levam a interrupções durante uma discussão sobre futebol em uma mesa de bar são os mesmos que os casos dos vídeos, por exemplo, em que as mulheres são pública e ostensivamente enfraquecidas frente a seus pontos de vista. Acredito que você não passe por isso para ser constrangido, assediado, ou humilhado, ou porque é especialista em futebol, mas alguém quer te contradizer para demonstrar publicamente como você é intelectualmente limitado, ou como você não sabe fazer as coisas direito. Seria capaz de apostar que nenhum homem tenta te explicar de forma paternalista e patética, o que é um impedimento. Então resumir tudo isso como falta de educação, em minha opinião, é minimizar o problema.

O que você pensa sobre isso?