Entendendo o autismo

O termo autismo foi usado inicialmente em 1911, para descrever sintomas de esquizofrenia, mas só foi descrito com maior amplitude de detalhes e como um quadro clínico nos anos de 1940. Atualmente é definido por sinais precoces na criança de dificuldade de socialização e comunicação, além da presença de comportamentos repetitivos. O autismo não é uma condição única, sendo apenas parte de um conjunto maior de transtornos conhecidos como Transtornos do Espectro Autista (TEA) ou Transtornos Invasivos do Desenvolvimento (TID). Este conjunto inclui crianças e adultos com diferentes níveis de prejuízos e habilidades intelectuais, desde indivíduos deficientes profundos até aqueles com alto funcionamento (como os conhecidos pela Síndrome de Asperger).

Grande parte das crianças portadoras deste tipo de condição parece apresentar uma perda de habilidades no segundo ano de vida, como parar de falar ou perder o controle de esfíncteres, depois de já ter parado de usar fraldas. Assim, o diagnóstico é realizado por volta dos 2 ou 3 anos, por profissionais experientes. Muitas vezes, estes mesmos profissionais preferem esperar mais tempo, até aproximadamente 5 anos de idade, para fornecer um diagnóstico concreto, pois em crianças com habilidades gerais muito baixas ou muito altas, pode ser difícil identificar alguns tipos de déficits. Até hoje não há instrumentos brasileiros específicos e totalmente confiáveis capazes de identificar o autismo precocemente. Assim, é necessário confiar, em grande parte, no julgamento clínico do profissional que realiza o diagnóstico, pois a condição é definida por meio de critério comportamental.

Não existem características físicas que determinem uma aparência típica para os autistas. Entretanto, estas pessoas apresentam uma ampla gama de comportamentos e aspectos psicológicos que os diferenciam. Estudos atuais descobriram ativação reduzida em áreas cerebrais associadas com o planejamento, o controle de ações complexas e o processamento de informação socioemocional. Assim, alterações na comunicação verbal e gestual, dificuldade de interação com outras pessoas, interesse restrito a poucas atividades, comportamento mecânico, focalizado e repetitivo podem estar presentes. Também há relatos frequentes de dificuldades no contato visual com outras pessoas, inflexibilidade quanto a mudanças na rotina, desinteresse em atividades em grupo e indiferença na recepção ou retribuição de afeto.

A maioria dos pesquisadores acredita que os TEAs têm uma variedade de causas. Durante o início do século XX, veio à tona uma discussão sobre o vínculo entre a vacina tríplice viral e autismo, mas a grande variedade de evidências científicas disponíveis no momento não apoia essa ligação. A dúvida sobre a vacina apresentou um efeito tão grave que, atualmente, os Estados Unidos sofrem com epidemias de caxumba, rubéola e sarampo, já que parte das mães americanas decidiu não vacinar seus filhos, com medo de que se tornassem autistas após a vacinação. O baixo nível de prevenção no país auxiliou a infestação.

Por sua vez, as pesquisas sugerem uma variedade de possíveis fatores de risco para TEAs, como a exposição pré-natal a drogas, infecções e metais pesados. A perigosa noção de que o autismo pudesse ser causado por negligência parental (a chamada “mãe geladeira”) já foi completamente refutada. E, embora se reconheça que há um componente genético nos TEAs, e inúmeros estudos sejam periodicamente realizados, permanecem desconhecidos quantos ou quais genes podem estar envolvidos e operando em conjunto. Também é igualmente obscura a forma como fatores ambientais podem interagir com a susceptibilidade genética.

Os TEAs atingem aproximadamente 60 de cada 10 mil crianças com idade menor que oito anos, e cerca de quatro vezes mais meninos que meninas. Com pesquisas e métodos de diagnóstico mais aperfeiçoados, com a preocupação pública sobre o autismo, e com um possível aumento real do número de casos, estima-se que esse valor cresça dentro de um período curto. Estudos recentes (2015) relatam a existência de aproximadamente 600 mil pessoas com autismo no Brasil.

Como a definição do transtorno é relativamente recente, pouco ainda se sabe sobre o curso de vida tardio e a velhice nesses indivíduos. Pessoas com TEAs apresentam risco aumentado para problemas psiquiátricos incluindo depressão e ansiedade. Ainda não há perspectiva de cura para estes transtornos, embora haja algumas formas de manejo que parecem ser efetivas para alguns indivíduos. A estimulação precoce tem sido um processo bastante utilizado no acompanhamento do autismo. Consiste em uma série de intervenções de natureza preventiva e habilitativa que asseguram condições facilitadoras para o desenvolvimento da criança visando a uma maior independência futura. A inclusão escolar, que possibilita uma maior socialização e ampliação da capacidade de realização de atividades de vida diária, também é um fator importante. Atualmente, no Brasil, tratamentos farmacológicos são os mais utilizados, mas atuam sobre os sintomas do TEA, não sobre as dificuldades essenciais nas funções sociais, de comunicação e imaginação.

Nem todo portador de TEA apresenta uma deficiência intelectual. É possível observar uma diversidade de casos em que o indivíduo demonstra funcionalidade cognitiva. Entretanto, em Dezembro de 2012, foi assinada a Lei Federal 12.764, que institui a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista. De acordo com esta lei, a pessoa que apresente TEA em qualquer nível de severidade, passa a ser considerada, para todos os efeitos legais, pessoa com deficiência, dispondo de toda uma série de benefícios e possibilidades antes negados.

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