Do medo da opinião contrária (ou, Porque não apoiar o Movimento pela Renovação da Psicologia)

As últimas eleições para o Conselho Federal de Psicologia e o Conselho Regional de Psicologia – Minas Gerais aconteceram em Agosto desse ano.

Antes de votar, eu já tinha procurado informações sobre todas as chapas disponíveis. Estava meio descrente da Movimento “Pra Cuidar da Profissão” / Cuidar da Profissão Minas, devido à ausência de propostas vinculadas à avaliação psicológica e outras áreas mais científicas da Psicologia, pois se dedicava quase que única e exclusivamente às áreas social e comunitária (não desafazendo de suas importâncias, mas alguma representatividade para outros campos de trabalho é necessária). Fiquei entre a Movimento de Renovação da Psicologia e a Fortalecer a Profissão / Fortalecer a Profissão Minas. Resolvi pesquisar mais, seguir todas as chapas no Facebook, interagir nas postagens para observar os objetivos de cada uma.

Hoje, tive meus comentários apagados e fui bloqueada na página da chapa Renovação. Motivo: pedi mais informações sobre o ponto de vista assumido por eles. Em uma postagem sobre as ocupações nas escolas, posicionaram-se contrariamente, terminando o texto dizendo que se o leitor não concordasse com essa posição, que ficasse à vontade para descurtir a página.

Não tenho nenhum problema com pessoas ou instituições que exercem seu pleno direito de se manifestar, inclusive com opiniões contrárias às minhas. Mas acho difícil compreender o motivo que leva um espaço de discussão (é uma chapa para um conselho profissional!) impedir o debate e execrar quem não pensa da mesma maneira. Achei, assim como outros leitores, uma postura muito estranha e questionei. Meu primeiro post foi apagado, mas como sou teimosa, escrevi de novo. Meu segundo post foi apagado e fui bloqueada (apaguei os nomes das pessoas para não criar uma exposição maior que a necessária).

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Responderam aos leitores com frases como:

Novamente, você entra aqui para desinformar. Vai lá invadir algum canto também.”

Não acredite que está página está interessada no diálogo com a oposição ou com opositores. Isto é insensato.

Novamente, somente nos interessamos por pessoas cujo pensamento vai ao encontro de nossas ideias.”

É possível ler isso tudo no link da postagem: https://www.facebook.com/RenovacaoPsicologia/posts/562216243983198 – apesar que já apagaram vários comentários (os meus inclusive), então não duvido que apaguem o post a qualquer momento.

Acredito que uma participação profissional mais consciente exige discussões formadas por pessoas com pontos de vista diferentes. Discutir apenas com pessoas que concordam com um determinado ponto de vista cria uma idealização cega, não gera renovação, não permite crescimento. É ditadura.

Fico preocupada com meus alunos. Dou aulas a partir do quarto período e a maioria deles estará formada até as próximas eleições, em 2019. Estarão ainda muito recentes no mercado de trabalho e provavelmente serão seduzidos por discursos como o dessa chapa, de uma renovação da Psicologia, de uma valorização da Psicologia científica. Esta é uma fala vazia e contraditória quando comparada às ações reais. É função do professor ajudar a desenvolver discernimento e crítica em seus alunos. Se eu puder ajudar, contem comigo.

5 thoughts on “Do medo da opinião contrária (ou, Porque não apoiar o Movimento pela Renovação da Psicologia)

  1. Olá, Fernanda
    Eu estava na discussão da postagem, e concordo que foi no mínimo estranho tudo isso que sucedeu. Desconfio que nem todos da chapa partilhem dessa postura radical e antidemocrática, oq me desperta o desejo de questioná-los individualmente para ouvir uma resposta, talvez a exposição iniba esse comportamento agressivo protegido pelo anonimato…
    Sobre partidarismo ou antipartidarismo na psicologia: já chega… Tanto de um lado como de outro. Estamos desamparados em nossa categoria, com pouquíssimas perspectivas de melhora. O sistema de conselhos é ineficiente, não promove conquistas para a profissão, invés disso, mantém o foco em lutas de temáticas, que até podem estar relacionadas ao saber psicológico, porém, desvinculadas do campo de atuação profissional.

    Não adianta bater numa parede sem portas. É triste, mas logo teremos oportunidade de demonstrar que o jogo não vale só no período eleitoral. Até a próxima eleição, tem muito oq avaliar.

    Abç

    1. Olá Gabriela, obrigada por comentar. Concordo que há pessoas na chapa que pensam diferente. Entretanto, venho acompanhando há algum tempo as postagens da Renovação, e estas são sempre agressivas, principalmente quando se trata de algum aspecto da política nacional. São tão radicais quanto a outra chapa, que tanto criticam. Não é a primeira vez que noto essa grosseria e desprezo pelos seguidores e, se eles querem prezar por um espaço em uma eleição para o conselho, não deviam deixar o maior veículo de comunicação da chapa – que atualmente é o facebook – na mão de extremistas ditadores. No mais, concordo com toda a sua postagem! O sistema de conselhos é ineficiente e sinto que a profissão está abandonada. Gosto do seu otimismo, também torço por um futuro melhor! Abraços!

  2. É lamentável isso, Fernanda.

    Lembro quando um movimento similar ao “Renovar” (a chapa “Dialogar”) surgiu nas eleições de 2013, a partir de uma intensa insatisfação com as chapas existentes (em especial com a gestão da “Cuidar da Profissão”). Na época, houve um episódio parecido no qual pessoas e outros membros de chapas foram excluídos das páginas e grupos da “Cuidar” – sem contar os comentários ríspidos e um tanto quanto hostis.

    Agora, me parece que aconteceu o inverso e essa recusa ao debate é deveras assustadora (e o pior é que este é um movimento que concorreu nas eleições de um conselho de classe!) Evidentemente, o discurso progressista e a suposta defesa da representatividade mostraram ser bem rasos. No mais, a maioria das postagens resumem-se a ataques dirigidos a “Cuidar” e suas inclinações político e partidárias – o que, em algum grau, é passível de questionamento. Porém, fica só nisso… Como uma espécie de chapa de grêmio estudantil que não aceitou a derrota.

    Lamentável:

    E só um acréscimo a sua fala no facebook: posso dizer com convicção que se as eleições do Sistema Conselhos de Psicologia são parecidas com as nossas eleições para governantes, os Congressos de Psicologia (COREPs e CONEP) são um mini-laboratório da política tupiniquim como um todo: recheados de manobras políticas, silenciamento de alguns grupos ou sujeitos, troca de favores ou “compra de votos”, enfim, todo aquele festival que a gente já conhece.

    Abraços!

    1. Ludmila, obrigada por comentar! Vou repetir sua frase de tão acertada que foi: “a recusa ao debate é deveras assustadora”. Ao escrever o texto, retumbava em minha cabeça o significado do termo política: vindo do grego, deriva de polis, que é tudo o que é público, cívico. Assim, quando vejo uma chapa para o conselho que não aceita a política – em seu sentido mais original, que seria a opinião pública – sinto que nossa profissão tem trilhado caminhos muito errados… Abraços!

O que você pensa sobre isso?