Suicídio: saber para prevenir

O livro “Os sofrimentos do jovem Werther”, de Goethe, publicado em 1774, conta a história de um jovem que, apesar de ter seu amor correspondido por sua musa, Charlotte, sofre por não poder concretizá-lo, já que ela está casada com outro homem. A vida de Werther passa a ter um único sentido: ficar com sua amada. Por fim, ao perceber a impossibilidade dessa paixão, mata-se com um tiro. É uma obra em parte autobiográfica, nunca admitida como tal, pois embora tenha passado por eventos de vida semelhantes aos do jovem Werther, Goethe trocou nomes e locais de sua história para dar-lhe uma tonalidade mais fictícia.

A obra, durante um tempo, foi proibida em diversas partes da Europa, devido à forte onda de suicídios que se seguiu, por jovens de contextos semelhantes ao do protagonista, utilizando o mesmo método fatal do livro. A psicanálise, apropriando-se desse contexto histórico, cria o termo “Efeito Werther” (ou efeito de imitação), caracterizado pelo aumento sistemático do número de mortes por autoextermínio durante os dias que sucedem um suicídio noticiado.

Atualmente, esse efeito ganha maior notoriedade quando se trata da morte de figuras públicas ou celebridades, ou quando várias mortes acontecem em regiões geográficas muito próximas. Já foram levantadas hipóteses de que esse efeito apareceu logo após as mortes de Marilyn Monroe e Kurt Cobain; em Minas Gerais, estuda-se o alto número de casos de suicídio na cidade de Itabira, como um efeito de imitação.

A partir da ideia de que o suicídio poderia ser contagioso, formulou-se uma ética implícita, principalmente no jornalismo, para que casos de suicídio não fossem amplamente divulgados, com a finalidade de evitar o efeito. Entende-se que noticiar suicídios possa servir de gatilho para que uma tendência suicida se torne manifesta. A sociedade também não gosta de falar sobre o assunto, e transforma-o em um tabu. As leis brasileiras refletem isso. O Código Penal não autoriza ninguém a tirar a própria vida, mas o suicídio não é considerado crime, pela total nulidade da pena. Apesar disso, discussões sobre a legalização da eutanásia, do suicídio assistido e da morte digna são evitadas a todo custo. Nossa cultura lida mal com a mortalidade, principalmente uma mortalidade autoinfligida.

Mas será que devemos nos calar frente ao suicídio? Números alarmantes fornecidos pela Organização Mundial da Saúde (OMS, 2012 e 2014) demonstram que o silêncio não é a melhor saída. A cada 40 segundos, uma pessoa dá fim à própria vida no mundo. No Brasil, uma a cada 45 minutos, somando cerca de 11.800 mortes voluntárias por ano. A maioria dessas pessoas é formada por homens, embora a maior parte das tentativas seja provocada por mulheres. Estes dados são explicados pela força física e violência dos métodos utilizados pelo sexo masculino, enquanto há uma maior predisposição a conversar sobre os problemas e buscar ajuda, profissional ou não, pelo sexo feminino. O maior grupo de risco é composto por aquelas pessoas que já tentaram se matar anteriormente, devido ao alto número de reincidências. A faixa etária também é um fator a ser considerado. Embora haja um maior número de casos na população adulta, principalmente idosa, percebe-se um crescimento rápido em adolescentes, até mesmo em crianças, na última década.

Entretanto, é preciso observar estas informações com uma crítica elevada. Talvez o aumento do número de suicídios ao longo dos anos não seja real, mas sim que haja uma maior abertura para se falar sobre o assunto atualmente, e que a epidemiologia seja realizada de maneira mais adequada hoje que anos atrás. Ainda existe uma alta taxa de subnotificação de suicídios, aproximadamente 40% dos casos. Em alguns deles, a família pede para que se mude a causa da morte para evitar preconceitos e estereótipos. Em outros, os legistas notificam como “morte por fatores externos”, o que acaba fazendo parte das estatísticas relacionadas a acidentes e homicídios, mas não suicídios. Tomando estas informações como base, podemos concluir que o número de mortes voluntárias é ainda maior do que nossos dados nos permitem afirmar.

A pessoa, quando tenta se matar, não quer acabar com a vida, mas com o sofrimento para o qual não consegue ver outra saída. Se uma pessoa fala que deseja se matar, é preciso acreditar, apoiar e não a deixar sozinha. O maior mito relacionado ao tema é o que diz que quem fala que quer se matar, não vai fazer. Deve-se tentar compreender a pessoa, sem julgamentos e sem conselhos, apenas ouvindo o que ela tem a dizer e, finalmente, encaminhando-a para serviços de saúde que possam ajudá-la de maneira mais adequada.

O suicídio pode ser evitado. Profissionais da saúde estimam que 90% dessas mortes poderia não ter acontecido se as pessoas tivessem informações e tratamentos adequados. Pesquisas demonstram que psicopatologias, como a depressão e a bipolaridade, dentre outras, podem estar presentes em até 95% das pessoas que se mataram. Há uma predisposição genética ligada ao suicídio, intermediada pela presença do transtorno mental. Entretanto, fatores sociais também afetam fortemente esses números. Condições de trabalho, sexualidade, questões financeiras e relações familiares estão entre os motivos associados ao autoextermínio. O suicídio é multicausal, isto é, não apresenta uma única causa ou motivação.

Psicólogos, médicos e outros profissionais da saúde têm se debruçado nessas questões, buscando formas de reduzir a incidência dessas mortes. No Brasil, desde 1990, o suicídio é estabelecido como um problema de saúde pública. A OMS tem como objetivo reduzir em pelo menos 10% o número de suicídios no mundo até o ano de 2020 por meio de informação. Hoje, dia 10 de Setembro, é o dia mundial de prevenção do suicídio e falar sobre o tema tornou-se imprescindível. É preciso conhecer, saber e informar para conseguir prevenir.

* Hoje realizamos um evento no Centro Universitário UniBH (Belo Horizonte/MG) sobre suicídio e sua prevenção e foi um sucesso. Agradeço aos palestrantes convidados por aceitarem o convite com muita gentileza e disponibilidade, aos participantes por estarem dispostos a conversar sobre o assunto e à equipe de apoio por todo o suporte para que pudéssemos realizar um evento tão interessante. Obrigada a todos! Segue o link do Portal UAI com a divulgação do I Encontro de Psicologia UniBH sobre Suicídio – Suicídio: Saber para Prevenir: http://www.daquibh.com.br/suicidio

* Em caso de emergência, seguem os dados do Centro de Valorização da Vida (CVV): http://www.cvv.org.br/ e telefone: 141.

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